Esperando na Janela

Eu já ouvi tantas vezes: “Ela é misteriosa”,  “Uma menina de hábitos estranhos”, “É, você é esquisita”. Não que eu acredite realmente nessas coisas, é que é a mais pura verdade. Não consigo achar alguém que tenha os mesmos hábitos, gostos, desejos e anseios. Gosto de pessoas assim… esquisitas, com um “quê” diferente, com um tipo de incógnita que só os detalhes revelam o que realmente é.

Alías, sou apaixonada por detalhes. Observo muito, pouco falo. Gosto de ver a reação e a expressão. A forma como pronunciam as palavras e a verdade por trás da fala. A covinha no canto do rosto, o piscar dos olhos e suas entrelinhas. Dou tanto valor à simplicidade que a despedida da minha janela, será uma das mais dolorosas.

Aparentemente ela é um retângulo de metal e vidro, rodeado de concreto e uma tintura branca descascada. De um lado, um aconchegante apartamento, de outro, a cidade iluminada com a insônia daqueles que madrugam, seja lá pelo que for. Uns com as luzes de casas e apartamentos acesas, outros caminhando vagarosamente pelas ruas e os carros incessantes na velocidade e a pressa da conclusão, ou não, de seja lá o que for o motivo.

Quem diria que a tal janela se tornaria minha companheira, fiel escudeira e cúmplice número um? Nela encontrei o aconchego debruçar os meus braços e falar com a lua. Tantas vezes encostei meus cotovelos e falei ao telefone, sorri, chorei, pensei, tomei grandes decisões. E quando tocava aquele música que eu tinha que dançar? Discretamente ela me fechava no apartamento e guardava em segredo a expressão através da música.

Engraçado mesmo era colocar a cabeça pra fora, ver nove andares abaixo dos meus pés, segurar firme em suas astes e sentir a brisa batendo no rosto e dar aquela vontade de gritar. Mas eu nunca gritei. Os vizinhos eram curiosos o bastante para sutilmente aparecer em suas também janelas. E tinha dias… aqueles dias chuvosos ou até mesmo de final de campeonato, ou até, domingos chatos sem nada pra fazer… Era colocar a cabeça pra fora, fazer um barulho na janela, tocir ou cantarolar uma canção que lá aparecia cabeças em mais janelas. Era sempre as mesmas pessoas com assuntos aleatórios. Cansados de olhar para dentro, querendo saber o que há lá fora e com a necessidade de compartilhar. Falar. Ser ouvido.

Passar a última noite olhando através da minha janela é sentir a saudade dos momentos, das pessoas que alí estiveram, dos aprendizados que vieram com o busca de aprender a observar. É deixar alí as histórias, os sentimentos e os segredos. Chorar lágrimas da saudade que já bate no peito e deixar a alegria das conquistas e vitórias.

Aproveito os últimos instantes e digo: Que venha a próxima janela, outros luares e pôr do sol, outros detalhes, momentos e  aprendizados. Que venha o recomeço!

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