Histórias que o metrô não conta

Minha história com o Líbano começou cedo. Aliás, cultura árabe na minha vida, daria uma crônica. Lá pelos meus 12 anos (sinto me velha após esta afirmação), eu assistia a nova Clone. Sim, sim, eu dançava junto com a Jade e tudo mais. Todas as festas de aniversário em casa, era só ligar o Amr Diab no CD e a minha avó, dava um show. Eu amarrava coisas na minha cintura por cima da calça para dar o ar de leveza na hora de dançar. ‘How depressing is that?’

A minha geração teve uma infância livre. Não era ligada à moda nem a dispositivos tecnológicos, então brincar na rua descalço com os amigos da rua sem saída, era a coisa mais divertida do mundo. Mas eu tenho irmãos mais velhos, sabe como é. Os amigos do meu irmão, me viam na rua e falavam “Lá vai a cigana” ou “Puxa! Muito fashion a sua roupa”. Uma camiseta regata básica e uma saia cumprida estilo ‘cigana’, era mais que o bastante para eu sair pra rua pra brincar.  Acho que isso era um indicador de como as culturas influenciariam a minha vida, ao longo dos anos.

Okay, 2013 chegou. A vida mudou. A infância já era. Profissão, responsabilidade, faculdade e mil outras coisas estão passando pela minha cabeça enquanto eu espero chegar ao meu trabalho. Distraída, olhando para o nada enquanto calculo o meu tempo divido pelas coisas que tenho que fazer. Abre a porta do metrô em sei lá qual estação e pessoas de amarelo fazendo uma algazarra, cantando super alto, chamam a atenção de todos. Eu me assustei, é claro. Fui puxada dos meus pensamentos, “40 minutos para terminar aquele trabalho e opa! Lebanese people!” O Libanês quando está feliz,  só quer festa, e isso independente da idade. Cantar é a forma que eles sabem de expressar toda essa euforia. Não era pra menos! Pegreninos libaneses, passando por São Paulo, para ir a Jornada Mundial da Juventude.

Eu, quieta no meu canto, tentando observar a movimentação e desejando saber o que é que eles estavam cantando. Eu só decorei uma palavra que meu padrasto, libanês, me ensinou uma vez. E é um chingamento. Eu zuava o meu padrasto o tempo todo, pois ouvir um ocidental conversando, quando não se conhece a língua, quase sempre se tem a impressão de que eles estão se chingando. Mas não, são apenas povos muito expressivos no falar. Para dar o troco, meu padrasto me ensinou chingamentos, e fez eu pensar durante o tempo que eram elogios. Oh well! Decidi não lembrar de tudo, e de qualquer forma, não conseguiria entender os libaneses no metrô!

“Do you speak english?” um deles perguntou para mim, enquanto um outro grupo me observava. “Yes, I do”. Eles sorriram, perguntaram se eu era brasileira e também o meu nome, e logo embalaram uma música com palmas ardidas. Não aguentei. Fotografei. Sorri amarelo. Não estava entendendo nada. Eu desejei que eles estivessem cantando uma linda música para Jesus. Aliás, achei bem irônico vê-los indo para a JMJ, lembro-me que a família do meu padrasto inteira não acreditava em Deus, e eu fazia altas perguntas do porquê eles celebrarem o natal, que na verdade a data surgiu de um culto a uma deusa, e a igreja católica, não sei o quê, instituiu como o dia do nascimento de Jesus. Eles não acreditavam em nenhuma dessas coisas, mas gostavam da troca de presentes, comida boa e a reunião de família.

A festa do metrô durou o bastante para eu ter essas lembranças de volta na minha cabeça, e o simpático libanês, (pois é, esqueci de perguntar o nome. Meu pai diria: “Que jornalista é essa que não pergunta nem o nome?”. Bom, pai, sua filha. Sinto muito!) então, o libanês esticou o braço e me deu um bracelete de adeus. A porta do metrô se abriu, os amarelinhos saíram felizes e saltitantes, e eu, trabalhei com o bracelete da bandeira do Líbano o dia todo. Acho que o Líbano é uma pequena parte em mim, aliás, Deus permita que as nações sejam partes de mim.

Jéssica Tavares

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