É uma questão de ponto de vista

Sempre admirei quem escolhe como profissão a área médica. Não importa qual função. Escolher cuidar dos outros pelo resto da vida, é um ato muito bonito. Todos fazem trabalhos dignos se desempenhados dentro da ética profissional. O médico é o cabeça, tem uma especialidade e desenvolve conforme o caso. O enfermeiro é o faz tudo, é o cuidador. Está em contato direto com o paciente o tempo todo, auxilia, cuida, conversa, ouve, acalma. Tenho uma irmã enfermeira, e tenho orgulho disso.

O respeito e o cuidado dessas duas profissões, geram um sentimento de satisfação em quem recebe, no entanto, o receptor vai querer passar adiante a mesma gentileza e por aí vai. O respeito poderia mudar o mundo. O limite entre a liberdade de um e de outro, é algo a ser praticado. Mas vivemos em uma sociedade que se importa mais em ser diferente do que não invadir a liberdade do outro.

E o médico? Qual o limite entre o respeito e juramento à profissão? Certa vez um paciente deu entrada em um hospital, esse paciente precisava de uma cirurgia imediata pois havia perdido muito sangue. O médico responsável perguntou o que aconteceu com o paciente e seu superior respondeu: “Ele enfrentou um tiroteio com a polícia, após matar uma pessoa”. O médico ficou indignado. Afirmou que não faria a cirurgia. Julgou o paciente aos gritos e seu superior o retirou da sala. O paciente foi operado por outro doutor.

Um homem entrou numa simples cafeteria na zona sul de São Paulo. Sorriu para as pessoas que estavam sentadas, foi até o balcão e dissertou histórias para a dona, enquanto ela preparava seu café. Levantei para pagar a conta, não estava muito a fim de conversa naquele momento, ele continuou sua história e me incluiu como uma de suas espectadoras, enquanto gesticulava. Foi sequestrado uma vez, ficou três dias em cativeiro com sua filha de 6 anos. Sua filha teve que passar por três cirurgias de reconstrução da boca, pois o bandido bateu o cano da arma em sua boca. Ele é surdo de um ouvido, pois o bandido colocou a arma perto de seu ouvido e disparou por várias vezes. Depois disso, o homem levou a família para morar no Estados Unidos. Já fazem 6 anos que isso aconteceu e sua filha, agora com 12 anos, ainda acorda de madrugada assustada e gritando: “Pai! Ele machucou minha boca!”

O homem vem ao Brasil de tempos em tempos, ele tem que vir cumprir as cirurgias num dos hospitais que trabalha. O homem, é o médico que recusou auxílio ao paciente. Paciente que ele comparou com o bandido, que deixou cicatrizes em sua pequena e doce filha. “Eu não aceito! Não faço cirurgias em bandidos. Essa raça merece morrer. O que uma criança de 6 anos, faz de mal a três bandidos armados?!”. O médico, o homem, resolveu se colocar pai em primeiro lugar. Sua família é o que mais importa. Seu juramento é questionado. “Prefiro perder minha licença!”.

Um juramento ou um sentimento. Não importa agora. Saber da história do médico que recusou ajuda a um paciente, antes de saber da história de seu sequestro, nos colocamos na função de julgar. Do contrário, o coração estaria amolecido, e receberia a notícia da recusa de maneira mais sutil. O erro está aí. Não cabe a nós julgar. Ouvir a história de duas maneiras deveria ter o mesmo resultado.  Seja repulsa ou concordância. O certo é certo e a circunstância não pode mudar isso. O errado é errado, e o próprio nome já diz. O respeito é uma via única.

Jéssica Tavares

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