Você já se viu despido?

adj. Sem vestimentas; nu; desnudo.
Fig. Desprovido; despojado: despido de ornamentos.

Eu demorei muito para me despir para mim mesma. Tinha vergonha de algumas atitudes, desgotava de outras. Até encontrei alguns adjetivos mas eu me concentrava bastante nas coisas ruins. É tão complicado quando você não consegue se ver.

Eu tinha o hábito de me fechar no quarto para desenhar, escrever, fazer as minhas coisas. Eu fechava as portas da casa para me sentir de segura, mas todas as portas. Cozinha, quartos, banheiro, sala. Eu precisava ficar fechada em um ambiente.

Mal sabia eu que essa era uma metáfora para como eu me sentia por dentro. Me fechava para todas as possibilidades e me protegia do meu próprio eu. Está errado isso! Cadê as luzes desse lugar? Se não tem ao menos uma fresta, o ar não renova e a luz não entra pra eu poder enxergar onde não tropeçar.

As vezes o cômodo ficava vazio, era fácil sentar e fazer nada, respirar um ar único. Mas as vezes o cômodo tinha pilhas de coisas. Pastas e caixas e objetos por toda a parte. Não dava pra respirar alí. Cada vez que eu tentava levantar ou andar, uma parte do meu corpo se machucava, e ai! A dor me deixava nervosa, então o ar ficava pesado. Eu enchia o cômodo com palavras ruins e sucumbia meu interior a sentir toda a negatividade que saía da minha cabeça e de minha boca.

Um dia eu abri a janela. O vento entrou e limpou o ar do cômodo. Respirei fundo e senti o sabor do mundo exterior. Senti um alívio quando enxerguei que meu corpo não era perfeito, mas que eu não me importava com isso. A saúde que eu tinha que buscar, vai além do externo.

Eu consegui abrir todas as portas e deixei as luzes entrar. O erro estava na minha cabeça. Eu estava me fazendo fechar os olhos e os ouvidos para as coisas boas. Foi quando eu me vi. Despida. Em pé no cômodo eu olhei para a minha alma. Meu corpo se movia lentamente como se tivesse dançando ao som de uma orquestra. Olhei as imperfeições de todos meus pontos, reconheci as qualidades que alí viviam. Descobri um outro ser humano.

Eu consegui sair do cômodo depois disso, coloquei os pés para fora da porta e caminhei para as sensações, aventuras e obstáculos que os cômodos exteriores tinham a me oferecer.

Agora eu me vejo desnuda constantemente. Tiro as minhas amarras para entender quem eu sou. E o que eu sou muda a toda hora, pois eu estou vivendo no mundo exterior. Ele me influencia e eu o influencio. Decido todos os dias as coisas que posso me deixar influenciar e as coisas que eu preciso tomar uma posição mais forte.

Não é tão difícil assim viver no mundo exterior. Mas é preciso se conhecer primeiro. Do contrário, parece que estamos em quarto fechado, cheio de entulho, tentando nadar, num lugar que nem tem água.

Desafie-se a se ver desnudo. Tire as roupas da alma para se ver. Encontre com o seu ser. Descobra a pessoa incrível que mora no seu cômodo!

Jessica tavares - retalho da vida - photograph - fotografia

Jessica tavares - retalho da vida - photograph - fotografia

Anúncios

5 comentários sobre “Você já se viu despido?

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s