Até onde vai o amor?

O corredor do hospital parecia não ter fim. Enquanto caminhava, trêmula, ouvia a voz da enfermeira ao longe. – Você está proibida de abraçá-lo e beijá-lo. Não é permitido contato físico. Ela não deu ouvidos, continuou caminhando ansiosa para vê-lo.
A sala em que ele estava, parecia alegre diante das circunstâncias. Vários homens jogando cartas, camas arrumadas e pijamas uniformizados.
– Até aqui ela me acha!. Ele disse se levantando para abraçá-la.
– Fique sentado. Vocês não podem ter contato físico.

Por mais que desejasse correr para os braços dela, receber um carinho e dizer o quanto a amava com apenas o toque dos lábios, não teve coragem e travou. – O bebê! Disse com lágrimas nos olhos.
Ela não conseguia pensar em mais nada a não ser estar nos braços dele. Ela ignorou qualquer aviso e correu na direção de seu marido.
– Nosso filho! Ela disse enquanto corria para ele. Há apenas um metro de distância de seu amor, ela parou. O filho era dele também, sentiu que precisava da concordância dele para seguir em frente. Sentiu uma tristeza profunda.
– Estou em frente ao homem que amo e não posso tocá-lo? Gritou, jogando seu coração para quem quisesse catar aos pedaços.
Ele esticou o braço e deu um passo para a frente. Queria consolar a mulher que tanto amava.
– Eu estou avisando, pelo bem da saúde da sua esposa.
– Eu já entendi! Ele interrompeu antes que a frieza no tom de voz do médico tomasse conta do que estava sentindo.
– Cuide do nosso filho. Ele disse com a voz embargada.

Ela, com uma feição de quem não aceita a situação, passou as mãos na barriga e voltou a olhar para o seu amado, mas agora seu olhar transmitia horror. Foram apenas alguns segundos até ela se jogar nos braços dele. Os médicos correram para separá-los. Quando se envolveram num abraço, sentiram as mãos levando-os para longe, por caminhos diferentes.
Ela gritava, ele não entendia. Ela se debatia e ele chorava. Já estava pronto para o destino que o esperava. Foi apenas um ano casado mas viveu todos os momentos fazendo-a feliz e sendo feliz ao lado dela. Deixara sua marca na Terra, ele ia ser pai. Depois do casamento, era o sonho que faltava realizar.
Quando viu o choro silencioso do marido, ela acalmou e prometeu se comportar. Disse que só precisava saber como ele estava. Ela correu novamente e desta vez, ninguém que estava presente a impediu. Ela tinha sido avisada, foi escolha própria.
Beijou o rosto, acariciou-lhe o cabelo. Tinha tanta ternura em seus movimentos. Ele se deixou levar pelo amor de sua amada. Entre carinho no rosto e olhos fixados nos olhos, esqueceram que o mundo existia. Eles estavam juntos. Foi com isso que sempre sonharam. Ele beijou a boca dela enquanto seus olhos derramavam lágrimas. Beijou-a com todo o amor que sentia em seu peito. Derramaram corações enquanto ficavam abraçados em silêncio. O tempo acabou. Ele precisava voltar para fazer mais exames.

Depois disso ela não pôde mais tocá-lo, a não ser na despedida de sua vida. Ela nunca mais ouviria a voz dele. Seu amor havia partido para onde ela não mais poderia correr.
Se viu sentada observando as fotos anos depois. Sentia por ele aquele mesmo amor ardente e terno. Sentia falta de fazer carinho em seu rosto. A criança não sobreviveu. A intoxicação de chernobyl não permitiu deixar a criança viver. Ela não mais tinha vida quando ela correu para abraçar seu marido.
Se não tivesse corrido em direção a ele, não se perdoaria nunca. De uma coisa ela tinha certeza, lutou por ele até o fim. Depois do fim, sentiu saudades dele todos os dias.

Esse texto faz parte do curso de criatividade online, 360 dias criativos. Assista ao vídeo e saiba mais: https://youtu.be/7AxMFmQud3A

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